quinta-feira, 22 de maio de 2014

Fantasmas da Meia Noite, Sombras do Meio Dia - Parte III – Seis da manhã e meio dia.

A chave não é dia ou noite. A chave de tudo é sombra, luz, e intensidade. São três chaves, três portas. Dia ou noite não importa.

Às seis da manhã eu lembro pouco. Poucos dias eu estive acordado á essa hora, mas eu sei que é esse o momento que há um renovo. Alguma esperança ou possibilidade surge à essa hora, e os fantasmas só conseguem falar presos á sombra – E embora a sombra ainda seja grande á essa hora, ela é quase esquecida, diminuída; menos doída.
Ás seis da manhã o dia começa estar claro. Eu vejo aquele olhar vindo em minha direção, me pergunto o que seria, e mesmo que os fantasmas não possam me tocar, eles podem sugar, e podem comer direto das minhas entranhas se eu deixar, se eu for fraco e permitir, mas só tendem a ficar mais limitados com o passar das horas... Isto é: Se o relógio correr para frente, e não para trás fazendo noite instantaneamente. No mais, só podem falar, presos á sombra.
Enquanto as horas passam, ela está ali me olhando á distância, com um jeito possível de ser alcançada, mas a sombra ainda está grande para eu chegar perto – “O que eu posso falar sem me tornar ridículo?”, “Eu não tenho nada para falar com ela”, Eu não vou conseguir” -, e já estou me sentindo ridículo por pensar e não ir até lá como uma atitude natural de gente grande – Por não poder.
Antes do meio dia, conforme o dia caminha e tudo são apenas olhares, eu vou travando intensas batalhas, e vou perdendo todas elas: As sombras presas á mim gritam cada vez mais alto conforme o sol se levantava, conforme se intensificassem “Não é nada do que você pensa”, “Você está enganado”, “Seu papel de ridículo o está esperando”, “Eu não sei, mas algo me diz que vai dar errado” -, e assim vai durante o resto do dia, e ele acaba de repente, - a não ser que o relógio bata ás dez horas, a não ser que as horas não parem.
Em meus dias, muitos dias acabaram antes do meio dia, e então começou a entardecer de novo.
Batendo ás dez horas, o vento gelado da manhã bate em meu rosto, mas o morno do sol aquece meu corpo quando ela sorri. Então algumas vezes eu vou até ela, e outras vezes ela vêm até mim, e dali até as onze as vozes dos fantasmas vão diminuindo tom até estarem sussurrando – Mas a qualquer momento o tempo pode pular às horas, e o Sol cair queimando como subiu, mais rápido até, e tudo escurecer e o relógio bater à meia noite. - Então talvez o relógio bata ás doze.
Meio dia, e eu não sei o que o vento trouxe, mas ela está ali sorridente falando comigo, me achando interessante – com uma vontade de cuidar guardada, e ela ainda não sabe. Com uma vontade de ser cuidada, que ela sente e não sabe, mas eu ainda não dei um grande passo.
Ás doze do dia eles estavam controlados, e tudo o que eu precisava era não dar um grande passo que deixasse eles a mostra, mas tudo o que eu queria era dar um passo grande. Tudo o que queria era não ter que controlá-los, era não ter que lembrá-los.
Meio dia é a hora certa em que tudo parece verdade, e pode durar muito tempo. Meio dia pode acabar rápido, ou durar eternamente – com tudo o que ela faz e fala, com os fantasmas falando baixo e a voz dela, e o jeito dela sobressaindo sobre eles. Eu quase posso esquecê-los. Eu os esqueço, mas eles nunca se esquecem de mim... Sussurrando...

Conforme eles tentam fazer passar a hora, ela permanece firme mostrando-se interessada, e me chama para sair. – Nisso, a hora não passa.
Conforme eles forçam, comendo minhas palavras, diminuindo meu raciocínio, me fazendo parecer “idiota” para mim – “Bobo”, para ela -, ela se mantém firme em esmagá-los, achando graça de como eu estou bobo, e vendo além de algumas palavras desconexas, me dando tempo.
Então eu fico a vontade, e a hora não passa. O mais tardar até uma hora, e ela não liga àquela sombra, e ela entende, e não sabe. E tudo o que eu fico desejando é esquecer aquela sombra, é que ela nunca conheça, nunca entenda, e nunca precise ter pena de mim – Um desajustado. Traumatizado?  

Ao meio dia eu vejo as sombras delas – as sombras normais de todo ser humano, sem excessos. E o meio dia corre sempre “tudo bem”, com possibilidades para algo mais que pode durar a eternidade – Ou pode terminar ali. Mas ao meio dia, tudo corre “Tudo bem”, e as horas não passam; Enquanto for meio dia, tudo fica bem, tudo é bom e nós estaremos sorrindo. Enquanto for meio dia, ás doze do dia.