Primeiro o relógio bateu ás seis, e eles aparecem apenas com
aquelas lembranças gasta para que eu sinta saudade ou tenha alguma fé e
esperança.
Todos os dias, assim que o sol se punha, eles soltavam esses
filhotes de alguma coisa que aconteceu para que eu os alimentasse e eles
tivessem o que comer á noite - mas eu já não tinha nem crença e nem vontade.
Então bateu a meia noite, e eu já estava na cama, vazio e
cansado.
- Você tem que querer alguma coisa. – Eles disseram.
Eu disse “Eu não quero nada”.
- Então nós já ganhamos. – Eles disseram.
- Que seja. – Eu disse não me importando. - Passem fome, seus
estúpidos, não há mais nada para vocês comerem hoje. – Então eu sentia que
havia ganhado.
Então passava um tempo, e eles não se conformavam.
- E você não espera nada? Não crê em nada? – E todos ficaram
sem suas respostas.
Os sentimentos vagos eles também comem. A espera
desacreditada, a vontade vazia, as quimeras noturnas e as fantasias cientemente
desconexas com a realidade – Mas isso deve ter um gosto insosso porque por
vezes eles não comem, e sozinhas elas somem.
Eu fechei os olhos e fiquei com o vazio, e o vazio não é
como o vácuo. O vazio é vazio e não precisa de nada e não tem nada arrancado.
“Tudo o que você crê eles corroem, tudo o que você possa
sentir eles comem, tudo o que você possa querer eles devoram sem a mínima
pressa.” E em mim já era tudo em escombros.
Eles são seus medos, suas frustrações, são suas experiências
sobre o engano. São seus traumas mais sombrios e suas vergonhas, suas tolices e
seus fracassos. São a corrupção da alvorada – São as mentiras que o mundo tem
contado e seus enganos subsequentes por ter acreditado, são o individualismo do
mundo e sua arrogância.
Qualquer sentimento bom eles comem: Esperança, crença,
alegria, vontade, confiança... E enquanto eles devoram sua esperança e arrancam
de você a confiança, dissolvem sua alegria para tomá-la como água junto com sua
vontade. E enquanto eles dissecam seus pensamentos com percepções distorcidas e
sangram teus sonhos com as mentiras e os fracassos passados, o que você sente é
dor, uma profunda e insolúvel dor, crônica e aguda - mas ela vai embora assim
que eles terminam o banquete e os sentimentos somem, e você se sente aliviado,
agradecido por não sentir nada.
Vítima da própria fantasia; Dia após dia, assim que o
relógio batia às seis com aquele céu marfim antes de escurecer, eu tinha um
pouco de alegria e eles traziam lembranças, e com essa mistura eu sentia
saudade.
Então algumas lembranças da alegria que eu senti um dia
antes de ontem, misturadas a espera e a forma que o tempo passa, mais um pouco
de crença e meia dose de otimismo e outra de esperança compunha uma crença
obscura de algo que era apenas a mesma lembrança.
Dia após dia, alimentando as fantasias que o tolo guarda com
anseio junto ás visões desesperadas até se tornarem uma mentira, ou um engano
suficientemente grande para a meia noite.
Então eles voltavam às doze, e o relógio batia forte, muito
forte. Repetidamente como se gritasse ele batia. Á meia noite tudo o que você
crê eles corroem, tudo o que você possa sentir eles comem, tudo o que você
possa querer eles devoram sem a mínima pressa, e você não pode proteger uma
mentira/verdade tão grande da fúria deles - mas não mais, porque eu não tenho
nada que eles possam comer agora. E eu me sinto grato por não sentir e poder
passar por mais uma noite tranquila.