terça-feira, 5 de novembro de 2013

Fantasma da Meia Noite, Sombra do Meio Dia. / Parte I - Meia noite, Meio dia

Fantasmas se camuflam na neblina correndo pela escuridão em uma noite fria e solitária dentro de mim. Na noite que o mundo nos dá, durante doze horas eles correm soltos pela casa e são apenas os fantasmas que vivem no escuro, velhos conhecidos da minha abstração, e não precisam do frio, do vento ou da chuva. Não precisam que eu esteja sozinho, ou solitário, ou com frio, e são apenas os fantasmas que vivem na penumbra, precisam apenas das sombras que eu mesmo guardo. – E ai de mim se apagar a luz e os der espaço para correrem livremente pela casa, se não houver uma colcha e um travesseiro. Ai de mim se não houver onde eu possa me esconder para aliviar o tormento de suas sugestões de lembranças e vozes de pensamento. Eu queria poder dormir o máximo de tempo quando as luzes se apagam, mas não tenho sono.
Quando a noite se vai e o dia chega, eu quase sempre estou moribundo, com um sono insuportável que não posso segurar, e quase sempre perco o nascer do sol dormindo momentos antes, e mesmo que eu não durma antes, durmo logo depois de ele nascer e é muito pouco tempo para sentir, e quase sempre estou em casa, desarrumado, cansado e com um péssimo aspecto por passar a noite sem dormir.
Eu nem consigo sentir quando as horas passam e o dia está ali posto na janela. Eu nem consigo sentir... e por vezes não posso mais dormir, pois já é tarde e vou passar o dia moribundo.
Por mais doze horas meus fantasmas vão comigo, e são as sombras que me perseguem durante o dia claro, presas a mim, por aonde vou, a cada passo, refletindo de forma quase exata todos os meus movimentos, mas me fazem mais alto ou mais baixo, um pouco mais cheio ou mais fino, e nunca sou eu refletido ali, e sempre sou eu, e não exatamente. Então o relógio da catedral bate meio dia, o sol está no alto, as sombras são pequenas e quase imperceptíveis a quem não está atento, mas estão ali escondidas, e é um momento muito curte de tempo para eu fugir antes que elas possam ser vistas. E é quando você me vê, sem saber que há mais nove horas em que as sombras ficam às claras e eu não posso escondê-las em baixo do meu pé, e mais doze horas em que você não poderá vê-las, mas estarão todas libertas me levando para a noite assim que passar das seis, correndo livremente pela penumbra noturna.
Um simples passo mesmo ao meio dia, e toda aquela sombra estará ali, visível e perceptível, mesmo pequena, e são mais vinte e três horas para você perceber que eu não posso fugir dos fantasmas guardados á sombra que eu carrego...
O convívio sempre me arruinou, a proximidade, a intimidade, o amor; O sentimento é o inimigo que eu amo, meu sonho é sua realidade, mas quando chega hora, o relógio bate às doze, e é meia noite. E então você já estará sentindo que os fantasmas foram libertos, e estará se perguntando o que está acontecendo. Você não poderá vê-los, não poderá tocá-los, não poderá dizer tão certamente por aonde têm andado, mas poderá senti-los correndo no meio de nós enquanto for escuro. E não é tão curto o tempo que corre á meia noite. São mais quatro horas ao menos, sentindo-os sem poder vê-los, sem poder tocá-los enquanto eles sugam de pouco em pouco qualquer coisa boa de você e você sentindo a cada gole que há algo sendo roubado dos teus sonhos. São mais quatro horas ao menos de um pesadelo que você só escapa se fechar os olhos e preferir não sentir, se for para longe e esquecer-se de tudo aquilo o que eles tentam sugar de você.
Quando bate às doze e está escuro, tudo o que você crê eles corroem, tudo o que você possa sentir eles comem, tudo o que você possa querer eles devoram sem a mínima pressa em uma tortura dolorosa, como se fizessem questão de você perceber, para que se desespere enquanto eles te comem.

Correr, fugir, manter distância e esquecer. – É tudo o que se pode pensar para se proteger, mas isso é para mim ou para você? 

4 comentários:

  1. E mesmo que vc esteja bem e longe dessas assombrações, elas mesmas fazem questão de te lembrar que estão ali, perto de vc. Trazem imagens tão nítidas, como se fosse um filme 3D. Imagens as quais nem se pode fechar os olhos, são imagens que penetram em vc.

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